Por Ricardo Lima*

Traducción por Silvana Serrani

Curador de la muestra Fabrício Marques

Crédito de la foto (izq.) Ed. Ateliê /

(der.) Maurício Froldi

 

 

9 poemas de Desconhecer (‘Desconocer’, 2015),

de Ricardo Lima

 

 

NACÍ PARA cultivar

mundo

que no veré

 

nieto de mi hijo

pueblito asiático

sombra de algunas semillas

 

nací para alimentar una ladera

con bosque.

 

 

 

EN LA ESCUELA

infamia era cantar displicente

en el país del futuro

el himno sin euforia

 

en la infancia hice de cuenta

 

no hice cuentas

de memoria.

 

 

 

CIUDAD

de espaldas

cada vez más lejana

 

perdiendo sentido

 

muda

vigorosa

la planta se impone

y mira

lirio o iris

lámparas de cantero

 

árboles se aproximaron

fui dejando

 

dominaron.

 

El poeta Ricardo Lima.

 

RECONOZCO NO saber

donde anda el futuro

 

dedico días enteros

a las alas crudas del hijo que aprende a nadar

 

planto

riego

retiro hierbas dañinas

 

la mañana trae pájaro

que se revienta en el vidrio

 

la acacia

reflejada en esquirlas

retumbante amarillo.

 

 

 

VIVIR ES navegar

navegar en este hilo

caldo de eventos

con la fiebre de los días de mucho sol

 

temprano

una pizca de indiferencia

la noche

iluminar con vela

 

vivir es estirar este río

encadenado

en el azul del luto.

 

 

 

CUANDO UN AMIGO se va

 

el silencio que amplía la sala

la sirena que traga a los enfermos

el dolor que interrumpe la creencia

todo seca en un jarro

 

ojos desertan

en cuentos incompletos

 

sobre el paso que vacila

un árbol frondoso

en la plenitud de la primavera

amanece

flor

 

pero el amigo se fue.

 

 

 

TODO ES SAGRARIO

como la disposición de los libros en el estante

la manera de ordenar el día

 

en la sombra el tamaño de la soledad

de cada paso

 

todo es estrato

escalinatas

para encaminar el alma

o traducir los pecados

en platos limpios.

 

 

 

VIDAS

de trayectorias distintas

y único fin: ómnibus en romería en el barranco

 

otras

de caminos tan similares

mismo techo y proteínas: duran veinte y setenta

 

 

llega el momento

de no entender

 

vivo olvidando los anteojos

y cántaros d´agua rompiéndose.

 

 

SENTIR

el dolor que enciende al lapacho

y el hueso de la distancia

que no retiene una lágrima

 

la sangre fría de los peces

el ruido del almacén

 

sentir

al menos una vez al día

la mirada atravesada

en la senda de peatones.

 

 

 

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(poemas en su idioma original, portugués)

 

 

 

9 poemas do Desconhecer (2015),

do Ricardo Lima

 

 

NASCI PARA cultivar

mundo

que não verei

 

neto do meu filho

cidadezinha asiática

sombra de algumas sementes

 

nasci para alimentar uma encosta

com floresta.

 

 

 

 

NA ESCOLA

infâmia era cantar displicente

no país do futuro

o hino com estranheza

 

na infância fiz de conta

 

não fiz contas

de cabeça.

 

 

 

CIDADE

às costas

cada vez mais distante

 

perdendo sentido

 

muda

vigorosa

a planta se impõe

e olha

lírio ou íris

lâmpadas de canteiro

 

árvores aproximaram-se

fui deixando

 

tomaram conta.

 

 

 

ADMITO NÃO saber

onde anda o futuro

 

dedico dias inteiros

às asas cruas do filho que aprende a nadar

 

planto

rego

retiro ervas daninhas

 

a manhã traz pássaro

que se esborracha no vidro

 

a acácia

refletida em estilhaços

retumbante amarelo.

 

 

 

VIVER É navegar

navegar neste fio

caldo de eventos

com a febre dos dias de muito sol

 

cedo

uma colher de indiferença

a noite

iluminar com vela

 

viver é esticar este rio

acorrentado

no azul do luto.

 

 

 

QUANDO UM AMIGO se vai

 

o silêncio que amplia a sala

a sirene que traga os doentes

a dor que interrompe a crença

tudo seca num vaso

 

olhos desertam

em contos incompletos

 

sobre o passo que vacila

uma árvore frondosa

na plenitude da primavera

amanhece

flor

 

mas o amigo se foi.

 

 

 

TUDO SÃO ALTARES

como a disposição dos livros na estante

a maneira de ordenar o dia

 

na sombra o tamanho da solidão

de cada passo

 

tudo são andares

escadarias

para encaminhar a alma

ou traduzir os pecados

em pratos limpos.

 

 

 

VIDAS

de trajetórias distintas

e único fim: ônibus em romaria no barranco

 

outras

de caminhos tão similares

mesmo teto e proteínas: duram vinte e setenta

 

chega o momento

de não entender

 

vivo esquecendo os óculos

e cântaros d’água quebrando.

 

 

 

SENTIR

a dor que acende o ipê

e o osso da distância

que não segura uma lágrima

 

o sangue frio dos peixes

o barulho da quitanda

 

sentir

ao menos uma vez ao dia

o olhar atravessado

na faixa de pedestres.

 

 

 

 

 

*(Jardinópolis -SP-Brasil, 1966). Poeta y periodista. Trabaja en la Editorial da Unicamp. Ha publicado en poesía Primeiro segundo (1994), Chave de ferrugem (1999), Cinza ensolarada (2003), Impuro silêncio (2006), Pétala de lamparina (2010) y Desconhecer (2015).

 

 

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*(Jardinópolis –SP-Brasil, 1966). É poeta e jornalista. Trabalha na Editora da Unicamp. Autor de dos livros de poesia Primeiro segundo (1994), Chave de ferrugem (1999), Cinza ensolarada (2003), Impuro silêncio (2006), Pétala de lamparina (2010) e Desconhecer (2015).

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